
«…Sabem como são os mortos? Ei-los dormindo boquiabertos e com as pálpebras enormemente esticadas: alguns têm a morte no ventre, outros nos dedos muito grossos, e são como os palhaços adormecidos entre dois números de circo ou no intervalo que separa o riso da sua infinita desgraça interior. O cadáver do soldado Amaral observava o circo e devia pensar que o mundo se enchera já de tudo o que não servia para nada. Eu saltara por cima dele, e senti que a solidão da eternidade me dava uma dentada na cabeça do pénis. Ouvi perfeitamente o meu grito, o grito das minhas pernas enroladas no seu corpo, e detive-me apenas um instante a observar-lhe a testa com um tiro: alguém devia ter feito pontaria às sobrancelhas muito revoltas, pois uma miserável pena de pássaro fora decerto disparada, como a seta por um arco, e entrara fundo no espaço da sua cabeça. A estranha morte repetia-se assim: da parte da frente, quase não se dava por ela, uma mordidela distraída, o fracasso ligeiro de um corno de peixe-agulha e nada mais. Porém, do lado de trás, ao centro da nuca do soldado Amaral, uma cratera com ovos abrira tudo: esguichavam bolas de sangue, miolos vomitados, rolos de cabelo misturados com esquírolas e lascas de couro. E então eu soube que estava no mais horrível momento e que toda a memória da minha vida tinha entretanto desaparecido.
Quem era eu?, pensei. Nunca estivera em outro qualquer lugar do mundo. Apalpava o meu corpo com as mãos incrédulas, e ele já não existia; tinha-me esquecido de todas as suas formas ainda há pouco familiares, precisava de ir à procura dele, recuperá-lo depressa, regressar com ele ao mundo de que nos havíamos perdido. Encontrado o corpo, corri por dentro dele, obriguei-o a mover-se para diante, ao encontro dos outros mortos, e os meus músculos eram manivelas, roldanas, estranhas rodas-dentadas ligadas a pequenos rodízios com ferrugem.
Quem sou eu?, pensei de novo. Quem sou eu, para ter de olhar o peito aberto do soldado Cláudio, as suas pernas abertas e flectidas, o olhar de virgem violentada no meio do canavial? Não sou capaz, não vou ser nunca capaz de contar os ossos, o rasgão dos punhais que tinham mordido muito fundo os seus pulmões. Não vou ser capaz de olhar e ver o modo como o granada estremeceu e estoirou as aduelas inúteis das costelas, varreu por dentro as migalhas dos miúdos ossos sem nome e acabou por anichar-se-lhe no estômago. Morde bem a língua, meu menino; fecha bem as mãos e agarra as madeixas de capim; espreme toda a esperança da terra e aperta o saco do teu corpo, onde guardarás as estrelas, as dragonas, o monóculo, o pingalim dos generais da tua guerra…»
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