sábado, 26 de junho de 2010

P451-DESERTOR OU PATRIOTA

«DESERTOR OU PATRIOTA", David Costa,Vila Nova de Gaia, Editorial Ausência, 2004,

Na contra-capa:

«Esta é a experiência de um desertor que nunca o foi, de um homem que descobre nas matas da Guiné um povo amigo apesar da guerra e que se defronta com a perseguição implacável de um regime em pânico, incapaz de acreditar nos acontecimentos que relata; acontecimentos verdadeiramente excepcionais, quase inverosímeis, mas ao mesmo tempo reveladores do que há de mais sincero e inocente no espírito humano.
Trata-se pois de uma narrativa na qual se acredita com o coração, se a análise racional nos deixar porventura perplexos.
Memórias de alguém que sofreu as agruras da prisão, que sofre ainda hoje com recordações tão dramáticas, mas que não deixa de se mostrar reconhecido por o destino lhe ter dado a oportunidade de conhecer o lado humano do inimigo, o povo irmão que fala uma língua que nos é comum e com o qual o reencontro é necessário para lá de todas as vicissitudes políticas.»

O David Costa chegou à Guiné, na CART1660, em Fevereiro de 1967, como soldado condutor auto-rodas, mas foi colocado na secretaria. Esteve várias semanas no Olossato, mas foi em Maio, com a companhia, para Mansoa. Aí, uma das suas missões era o transporte do correio chegado a Bissau para os elementos da companhia. Numa dessas vindas do correio, trouxe uma carta para o camarada Floriano de onde caiu uma fotografia de uma linda jovem. Gozou com o camarada, mandou umas piadas parvas que não caíram bem, nem ao Floriano nem a ninguém. Ficou arrependido e com problemas de consciência, pelo que decidiu sair do quartel e embrenhar-se na mata, com a única vontade de carpir a sua culpa. Foi apanhado pelos guerrilheiros e levado para o Morés. Foi tido como desertor, porque disse que fugira. No Morés foi bem tratado e travou amizade com uma jovem caboverdeana. Levaram-no para o Senegal. Pelo caminho parou em Irakunda onde conheceu o Aristides Pereira, foi sempre muito bem recebido pelas populações que encontrava. Em Ziguinchor falou com o Luís Cabral, que lhe comprou um fato e uns sapatos, e com o médico português Mário Pádua, conheceu um desertor português que lá estava com a mulher e a avó. Prometeram-lhe que a mulher dele havia de se lhe juntar. Mas ele, de facto, não era desertor. Se eu não fosse casado ainda cá ficava, mas, como sou, quero é voltar para a minha terra (Fânzeres), pensou ele. Foi para Dakar e aí, através de umas freiras, chegou à embaixada da Suiça, que o acolheu e lhe deu um passaporte suíço. Depois de contactos com Bissau, foi lá uma avioneta civil que o levou de regresso à Guiné.
E começaram os problemas. Fui tratado pelos meus compatriotas como os meus inimigos não me trataram, disse ele. Quando chegou a Bissau foi algemado e metido numa prisão fétida no 600. Tratado como traidor, comunista, turra, aí ficou alguns meses. Levaram-no de regresso a Mansoa, onde também esteve vários meses numa prisão, sempre massacrado pelo major Leite, que o tratou abaixo de cão, sempre como comunista traidor, turra. Regressou a Bissau para ser julgado, sendo condenado a dois anos e meio de prisão como desertor. "Nesse julgamento não havia uma única testemunha a dizer que eu tinha sido desertor de facto". Novamente na prisão, o Spínola soube mais tarde do caso dele e mandou-o para Bolama. Em 20 de Junho de 1971 regressou a Portugal no Uíge, o mesmo barco em que embarcara para a Guiné em Fevereiro de 1967. Já com a família contaram-lhe as agruras que a mulher sofreu com a constante intervenção da PIDE na vida dela.

4 comentários:

  1. o sr mario de padua desertor traidor e confuso ele nao sabe o que faz a um ser humano como tal deve ser respeitado como portugues nunca traiu a sua patria a bem da naçao fui g.necho@hotmail.com

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  2. Gostaria de saber como contactar o Sr. David Costa alguem me pudera informar?

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    1. Boa tarde sou o filho do David Costa pf quem quiser entrar em contacto com meu pai ele certamente ira ficar contente por relembrar camaradas meu email angelodae@hotmail.com
      Deixe contacto e farei chegar ate ele com agrado

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  3. Não fico de boca aberta, aparvalhado pelo que aconteceu a David Costa, que no ardor da sua nostalgia soube reconhecer um erro intencional e quis purgá-lo no silêncio da floresta. Infelizmente, a barbárie que jaz adormecida em todo o ser humano, mais cedo ou mais tarde, e em maior ou menor grau, sempre se exprime. Nenhum camarada, sargento, oficial ou juiz (ninguém!) levantou uma questão elementar, que por si só o absolveria de todo o estigma: PORRA!!! SE ERA DESERTOR, PORQUE DIABO REGRESSOU?

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