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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

P056-Antes da guerra (6) ...quando a cabeça já estava à tona d'água na minha "manhã submersa" - II

Depois destes dias de jingle bell, bom natal, feliz ano, tantas prendinhas para o menino, vê lá não bebas muito, não chateies ninguém porque é dia de festa, vou voltar ao que nunca esqueci, aos meus tempos de seminarista em Manique. Vai mais um copo.

Mas, primeiro, deixem-me lembrar novamente Virgílio Ferreira na sua "Manhã Submersa":
«(...) Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento «real», a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas «comovente»... Dói-me o que sofri e «recordo», não o que sofri e «evoco».

3 de Maio de 1961 - Depois de ouvir as façanhas dos soldados portugueses em Angola, ponho-me no lugar deles. Sonho com mil combates dos quais sou o herói... Tenho muitos sonhos desses. A maior parte das vezes saio vencedor, mas há vezes em que morro. No entanto, é sempre cercado de glória, sempre como um herói, sempre louvado e recordado pelos vivos. E eu, mesmo depois de morto, assisto à minha exaltação, ouço os comentários desvanecedores e o meu nome pronunciado por milhares de bocas, com uma série infinda de pontos de exclamação e admiração... Mas, quando acordo, acho melhor estar vivo.
15 de Maio de 1961 - O Gonçalves contou-me a história daquele seminarista que, desgostoso com a sua vida de clausura, despiu a sotaina, pendurou-a numa figueira e fugiu, saltando o muro do seminário. Também a mim me dá desejo de deixar esta grandessíssima porcaria. Se eu ao menos encontrasse uma figueira para pendurar todos os meus comlpexos, todas as minhas frustrações, todas estas cadeias que me rodeiam dia a dia e nas quais eu me vou deixando enlear... Falei com o Director Espiritual sobre os meus problemas sexuais. Mas que grande merda! Julga-me uma criança... “Estás a tornar-te um homem”. Há mais de três anos que me andam a dizer isto. Ainda não terei mudado nada?! E dão-me a ker livros que eu já devia ter lido há mais de três anos... Essa literatura para mim já não apresenta novidade nenhuma. Quando me dão a ler livros desses já eu há muito tenho ultrapassado o que neles vem escrito. E de que maneira! Além isso, como pode dar resultado uma direcção espiritual que sou obrigada a ter com um indivíduo que para isso é uma autêntica nulidade?
18 de Junho de 1961 - Hoje apetece-me saltar o muro... Mas, ai de mim se o salto! Serei tido como ladrão, hipócrita... Andei a enganar os superiores! Malandro! Roubei todos aqueles contos de réis que a congregação gastou com a minha educação. Serei verberado nas conferências, nas aulas. Coitado. Aquilo que tiver dito em particular será relatado da cátedra. Cátedra... que gozo. Como esse móvel por si tão nobre tem sido tão ultrajado! Serei verberado da tribuna do charlatão – isso sim – do charlatão que aproveita a falência do seu rival para valorizar a sua mercadoria. Como ficam fulos estes idólatras quando o seu deus cai do pedestal!... Se o ídolo ainda ficou incólume, tratam eles de o afeiar. Depois, pregam aos outros o Deus verdadeiro, irritados pelo seu erro... É um género de vingança, porque me deixaste ficar mal.
7 de Julho de 1961 - As insinuações serão uma táctica pedagógica?... Talvez façam parte da tão apregoado sistema preventivo, do qual têm tanta cagança...
16 de Julho de 1961 - Talvez eu tenha sido sincero demais. Quantos o terão sido como eu?... Eu e a minha estupidez, a minha infantil boa fé. Por ter falado das minhas masturbações sofro agora as consequências.
31 de Julho de 1961 - Submeto-me à vossa vontade, meu Deus, mas peço-vos permitais que eu desabafe a minha dor no pranto, na solidão. Mas acho que já tenho chorado demais para a minha idade e a solidão tem sido, nestes últimos dias, minha fiel companheira. Fiel, muito fiel. Por toda a parte. Mesmo quando estou com os outros. Não viestes vós trazer o amor ao mundo?... Mas não o vejo nem sinto. Quando julgo ver ao longe a sombra desse amos – aquele com que eu sonhei! – corro, mas – oh, desengano! – tanto mais dolorosa é a desilusão quanto mais desejado era o ilusor. Não era aquele o vosso amor? Aquele amor com que eu sonhei não é o que vós viestes trazer ao mundo? Se é, para que trouxestes, então, um amor que atormenta as aspirações humanas? Um amor que a maioria não atinge?... Um amor não para todos, mas só para os eleitos?...
6 de Agosto de 1961 - A maior dor de quem sofre é ser desconhecida a sua dor. Quando se sofre é sempre bom ter alguém que compartilhe da nossa dor.
15 de Agosto de 1961 - Começa a atacar-me a tristeza. Como são salgadas as lágrimas da dor!...Hoje rezei. Aguns rezam com uma esperança florida, o coração em festa. Outros haverá, certamente, como eu, que rezam orações de defuntos, nos lábios uma flor fanada...
16 de Agosto de 1961 - Muita alegria externa, muita dor no coração. Sabes, papel, o que é andar triste quando os outros estão alegres?... Sabes o que é não poder participar na alegria dos outros?... Estar triste pelo mesmo motivo por que os outros estão alegres?...
25 de Setembro de 1961 - Como são ridículos os juízos humanos! Que sabem aqueles senhores do Capítulo para poderem julgar? Quinze dias antes passeiam a consciência pelos corredores, por entre os cedros, espreitando com afã... Depois, em reunião, podem, com a consciência descansada, deixar escorregar pela caixa um miserável feijão preto. Um feijão preto que dará forças a um pobre para muitas noites e muitos dias?... E o Espírito Santo?! O Espírito Santo é Deus, e Deus só pode permitir o mal, nunca querê-lo – assim pregais!
25 de Outubro de 1961 - Vi no céu uma estrela cadente. Será a minha?... Não, porque no céu não brilha a minha estrela. Percorre outros caminhos, triste.
18 de Dezembro de 1961 - Falou-se muito sobre Goa. Os goeses Óscar e o Fremioth acham que foi natural, pois Goa é Índia. Se calhar têm razão.



O "terrorismo" em Angola e a "invasão" de Goa eram temas muito falados pelos padres, sempre dentro da linha governamental, claro.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

P036-Antes da guerra (5) ...quando a cabeça já estava à tona d'água na minha "manhã submersa" - I

Lá saí de Mogofores e fui para Manique, do Estoril. Aí fiz, primeiro, o Noviciado (fiz voto de pobreza, castidade e obediência… obediência e pobreza tinha que ser, não havia remédio, mas quanto à castidade havia, o que estava à mão, é claro …), fazendo a seguir um ano e pouco de Filosofia (hão-de ver porquê). Foi quando comecei a pensar e a ver o que era aquilo.
Já o Virgílio Ferreira dissera no seu livro “Manhã Submersa” em 1954:
“(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos perfeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos”.
A partir de uma certa altura comecei a fazer um diário, um afastamento para dentro de mim próprio. Todos conhecem ex-seminaristas, certamente, mas talvez não imaginem como era as suas vidas, as amarguras e traumas sofridos. Vou dando alguns excertos, os mais significativos, e por etapas. Não quero fazer a história da minha vida, apenas fazer ver que espíritos e mentalidades, não preparados para isso, andaram envolvidos em “ver matar e morrer”, como disse o João de Melo. Poucos estariam, mas eles (conheço vários ex-seminaristas que estiveram na guerra) até tiveram uma preparação para o contrário.
6 de Março de 1961 - Chamaram-me singular. Porque é que eu sou “singular”?... Por eu não ser como os outros?...Às vezes vou para dentro de água quando os outros não estão lá; outras, enquanto eles lá estão não me apetece tomar banho e, portanto, não vou. Porque terei de ser como eles?!... Não posso ser eu próprio? Terei de ser, de agir como todo o rebanho?...
23 de Março de 1961 - Fartam-se de dizer que este ou aquele indivíduo são pessoas de virtude, almas boas. Mas eu não vejo onde está a virtude deles, dos que me cercam. Noto, sim, que não me compreendem, uma incompreensão flagrante, um alheamento dos problemas dos outros, um auto-aperfeiçoamento egoísta, presuntivos “olhar só para Deus” e “cuidar da salvação”. E isto contra todos os princípios que o seu pretenso Mestre lhes deixou. Será isso ser virtuoso?... Pode ser que sim...
18 de Abril de 1961 - O Bom Pastor... Hoje é dia do Bom Pastor. A mim custa-me a acreditar que ele cuida de mim em particular. Sinto-me lançado, posto a um canto. Do género “desenrasca-te”. Tudo me tem corrido mal.
19 de Abril de 1961 - Em tudo o que faço há-de haver sempre alguém para dar o seu veredicto e fazer a sua interpretação, sempre contra. Eu sei que tenho cometido faltas. Mas porque hão-de elas pesar sempre sobre as minhas acções e intenções presentes? Há indivíduos que estão sempre debruçados sobre o passado. Quando levantam a cabeça para encararem o presente os seus olhares míopes não conseguem vê-lo sem continuarem a ter as outras coisas impressas na retina. São as tais pessoas caridosas que ainda carregam mais na cruz de cada um. Hoje não andava cá nos meus dias “sim”. Pois ainda houve alguns senhores que me vieram chatear.
20 de Abril de 1961 - Eu gostava de ser alegre. Mas não, não pode ser. A alegria é o amor satisfeito. Eu sonhei com um ideal de amor, um tipo de amor que possuo em mim, mas que não encontrou satisfação em parte alguma... nem em Deus. É escusado: nunca a vontade encontrará o objecto dos seus desejos... nunca terei alegria. Nunca encontrarei o outro amor igual ao meu. É estranho que Deus esteja nas criaturas. Não o vejo lá. Serei, acaso, obrigado a procurar Deus em toda a parte?... Um Deus invisível, barbudo... Um Deus que me obriga a amá-lo... Assim como Ele é grande, é também grande a tarefa de procurá-lo somente a Ele em toda a parte. Deus é amor. Já me disseram tantas vezes!... Mas eu não compreendo. É tão penoso procurar a Deus.
O Esparteiro da fotografia também esteve na Guiné como alferes miliciano, creio que em Mansoa. E lá casou com uma libanesa...




segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

P024-Antes da guerra (4) ...fui santinho

A minha terceira fase começou quando o padre italiano Herminio Rossetti, já um venerável ansião e, se calhar, também já com alguma falta de lucidez, achou que eu podia dar um bom padre. Os meus pais, face à perspectiva de educação gratuita para o filho, não disseram que não, pudera. Numa manhã de Outubro de 1955 lá partimos, eu e o Manuel Cavaco, que também fora arrastado para aquele objectivo, num ronceiro Peugeot. Nós atrás e dois padres, que não me lembro quem eram, à frente. Pela Estrada Nacional 1, já mais que velha naquela altura, fomos de Lisboa a Mogofores, rezando o terço pelo caminho, não vá o diabo tecê-las, ou algum buraco da EN1.
E assim comecei a minha estadia de cinco anos no Seminário Menor Salesiano. O padre Angelo Paganella, também italiano, era o director. Grande pianista e músico era também o maestro do coral do seminário. Fiz parte dele, e a minha voz deve andar por aí num 45 rotações com temas natalícios que o Valentim de Carvalho foi lá gravar uma vez. Através dos trechos de Verdi que cantávamos dei os meus primeiros passos no italiano. Va pensiero... Havia uma banda, onde eu toquei clarinete, que participava em todas as procissões lá da aldeia. Tinha piada.
Não teve grande piada quando ouvi uma prelecção a falar mal do Humberto Delgado, não é que eu na altura conhecesse o senhor mas não me pareceu bem, e também quando não me deixaram ler “O Crime do Padre Amaro”, numa aula em que se falou do Eça de Queirós... eu, inocentinho, só queria saber qual era o crime.
Na fotografia que mostro estão os do meu 5º ano. Os que lá chegaram. Não está, por exemplo, o Manuel Cavaco, pois ele, creio que ao fim de dois anos, já não estava para aquelas cenas nem gostava daquelas peças e decidiu partir para outras. Lembro-me deles todos, mas só me lembro de alguns nomes:
- com o X vermelho e a boina enterrada na cabeça sou eu;
- o 1 é o caboverdeano Jaime do Rosário, que fez parte dos Tubarões, mais tarde;
- o 2, não me recordo do nome, morreu de pneumonia no seminário, antes de acabar o 5.º ano
- o 3 é o Claudino;
- o 4 não me lembro do nome mas disseram-me que morreu afogado em Lamego durante um treino dos Operações Especiais no rio;
- o 5 é o César Vilafranca, que foi, depois, Presidente da Câmara de Castelo Branco durante vários anos;
- o 6 é o Elíseo.
De todos só um é que chegou a padre: é o 7, o Joaquim Taveira, que é agora, parece-me, o Provincial dos Salesianos. Não me admiro, pois fazia por isso. Eu e alguns dos outros ainda fomos para a fase seguinte.
Quanto ao que morreu de pneumonia, teceram-lhe muitos encómios e procuraram, dentro da tradição de apontar modelos de santidade, dá-lo como um exemplo a seguir nesta vida por todos os seminaristas.
...Mas não percebo porque é que fui eu o entronizado como santo. Eu explico:
Estava em construção a Basílica de Nossa Senhora Auxiliadora e o director quis fazer uma estátua de S. Domingos Sávio (um santo da Congregação). Não sei porquê, se calhar tinha cara de santinho, mas acharam que eu podia fazer de modelo. E lá me submeti a várias sessões para a obra do artista. A construção ainda não tinha acabado quando saí desse seminário para outra etapa, mas, há anos, passei por lá e tirei-me umas fotografias. Se enfiarem uma boina na cabeça do santinho em vez da auréola, vêem logo que sou eu, rosadinho e de lábios pintados.
...E quem lá for também pode ver-me num pedestal do lado esquerdo da basílica.