Do nosso camarada Zé Rodrigues recebemos a seguinte crónica à qual o mesmo promete dar a devida continuidade.
Cá ficamos todos a aguardar.
A todos os ex-combatentes da Guiné, e em particular aos dirigentes, associados e amigos da Tabanca Pequena- Amigos da Guiné
Só peço ao meu futuro que respeite o meu passado
No baú das memórias de cada um de nós existem inúmeras “Istórias da Guerra” por contar.
O convívio semanal na Tabanca de Matosinhos e o nascimento da ONG Tabanca Pequena-Amigos da Guiné a que me honro pertencer, despertaram-me para o desafio de retirar do baú as minhas “istórias da guerra”. Para ultrapassar a minha manifesta falta de jeito para a escrita, socorro-me de um método narrativo baseado na descrição cronológica de episódios, a que chamarei de “Conversas á mesa com camaradas ausentes”. Do outro lado da mesa estará sentada a esperança de encontrar alguém que se reveja nas “istórias” relatadas e sinta a emoção do reencontro com realidades da nossa vivência na Guiné.
“Istórias da História da Guerra Colonial – Guiné Bissau
“CONVERSAS Á MESA COM CAMARADAS AUSENTES”
1 - MOBILIZAÇÃO
Lembras-te camarada, daquele dia em que recebemos a notícia da nossa mobilização para a Guiné, estávamos então colocados no RAP2 em Vila nova de Gaia, e te dei conta do quanto iria sofrer para informar o meu PAI dessa má nova. Estava-mos nessa altura com 18 meses de tropa, colocados bem perto de casa por mérito da nossa elevada classificação na especialidade de enfermagem e, já tínhamos como certo que por cá ficaríamos.
Má sorte a nossa.
E a esperada reacção do meu pai que, como também sabias, era completamente contra a minha participação na guerra colonial devido às suas arreigadas convicções políticas, contrárias ao regime de então.
Temendo uma reacção destemperada do meu PAI, pedi-te que me acompanhasses até casa para que, com a tua presença, me ser mais fácil dar-lhe a má notícia.
Lembras-te da sua reacção?
Vamos já tratar de te “pôr” em França, disse ele. O pior está para vir, pensei eu, que já havia decidido não desertar nem abandonar o país. Como a nossa especialidade era enfermagem, ainda alimentei a esperança de que o meu PAI não olhasse para a minha ida para a Guiné como “ mais um ao serviço do colonialismo”.
Quando recusei a ida para França, assumindo dessa forma uma decisão contrária aos seus desejos, passei a carregar o fardo de uma rotura que sabia ser dolorosa num momento difícil de quem vai para um cenário de guerra e cujo desfecho é sempre imprevisível. Como foi importante camarada a tua presença nesses momentos. Na assunção dessa decisão por inteiro, percebi que o meu futuro começava ali.
Regressamos ao quartel e pouco tempo depois veio a informação de que o Batalhão a que iríamos pertencer seria formado no próprio RAP2, unidade em que prestávamos serviço nessa data.
Lembras-te camarada com a tristeza que ficamos já em Viana do Castelo, cidade em que aquartelamos para fazer o IAO, quando soubemos que iríamos ficar em companhias diferentes, nós que estivemos juntos na recruta, na especialidade, no estágio da especialidade e até no RAP2.
Já mais separados, deambulamos pelos montes por detrás de Santa Luzia em busca da preparação tida como necessária para o bom desempenho das nossas funções. Lembras-te dos desenfianços que, juntamente com o camarada que tinha uma Renault 4L, fazíamos algumas noites para vir a casa que no meu caso, era dormir em casa de uma tia da minha namorada.
Até que, após vários adiamentos, lá chegou a hora de apanharmos o comboio rumo a Lisboa, aconchegados com o saco dos nossos pertences, em que cabiam volumes de maços de tabaco, montes de cuecas e peúgas etc. Lembras-te daquele trambolhão que o meu saco deu no comboio e em que se partiu a garrafa de wuisky que me havia dado um tio do meu pai que era Guarda-Fiscal. Fiquei a fumar cigarros com intenso a sabor a álcool durante uma temporada porque não havia dinheiro para mais.
Continua…………..