terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

P092-As Nossas Quartas-Feiras Continuam bem Vivas

Temos estado todos tão calados que até parece que a Tabanca deixou de existir.
Mas enganem-se os que assim pensam, pois ela está mais viva do que nunca.
Pelo menos às quarta-feiras continuam os nossos encontros sepre renovados e a média tem vindo a manter-se nos 25 que se juntam à volta daquela mesa para comer beber, falar, trocar experiências, contar histórias e sobretudo confraternizar. Numa semana aparecem uns , na seguinte já aparecem outros mas a todos ligam os laços criados pela guerra que todos vivemos em África entre os paralelos 11 e 12 graus a norte do Equador.
Se não acreditam vejam a s imagens do Jorge Teixiera:

Quarta dia 4 de Fevereiro




Dia 11 de Fevereiro:







terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

P089-Amizades criadas, umas em acontecimentos vividos outras em lembranças partilhadas

Semanalmente, juntamo-nos em Matosinhos, no Milho Rei, em grupo variável mas sempre numeroso. Em cada encontro aparecem sempre novos nomes, encontram-se amigos do antes, conhecimentos de situações específicas, e geram-se novas amizades criadas com as lembranças de sítios diferentes mas comuns de vivências. Porque em todos os lados as coisas se passaram da mesma maneira: sangue, suor e... lágrimas também.

Na semana passada tivemos o grato prazer da presença do velho combatente e camarada de armas Rui Fernando Alexandrino Ferreira, que passou s suas lembranças de guerra na Guiné para o livro "Rumo a Fulacunda". Nele, o Rui Alexandrino reflecte muito bem o porquê e as condições em que se geraram as amizades:


«…Destacava-se de todas as demais e constitui no presente, sem sombra de dúvidas, não só como o elo que «une» o clã, mas também o fulcro das atenções, o convergir das evocações, «quanto» normalmente, por a todos pertencer, acaba por sobressair nas habituais reuniões, convívios e almoçaradas com que, os antigos combatentes do ex-Ultramar comemoram, um pouco por todo esse imenso Portugal, de lés-a-lés, ano após ano, os acontecimentos, façanhas, peripécias, aventuras e desventuras que ali viveram mas, sobretudo as grandes amizades que por lá se fizeram.
Amizades que alicerçadas nas adversidades e engrandecidas nas agruras da guerra que enobrecendo os sentimentos, criaram a nostalgia dos vinte anos aos quais se passou a associar o cumprimento do serviço militar. Este que na altura, por pesado era mal amado que, assim se viu lenta mas inexoravelmente transfigurado numa agradável melancolia, numa doce recordação, numa eterna saudade.
«Vinte anos» que profundamente marcados pelos penosos, duros e difíceis «tempos de guerra» durante os quais para conservar o equilíbrio emocional houve que «rir» dos tempos e «escarnecer» da guerra.
E se era imperioso aceitar como um facto consumado a fatalidade inevitável de nela ter de participar, muito mais era, quando tudo parecia virar-se contra nós, manter a fé inabalável e conservar a extrema convicção de que, como com tudo quanto ocorre e tem por «palco» esta vida que, sendo ela própria findável e efémera consequentemente o que dela depende ainda que, mau ou muito mau acaba, mais cedo ou mais tarde por ter um fim.
Assim, era com toda a legitimidade que cada um se limitava a esperar e desejar tão somente o final da sua própria comissão que, se parecendo dum incrível e inaceitável egoísmo resultava tão somente do facto de não se ver, não se prever nem mesmo se julgar possível por que maneira ou de que «bendita» forma tal pudesse vir a suceder para todos, com a brevidade que efectivamente se desejava.
Encontrada uma das explicações possíveis para a maneira sui generis como a grande maioria encarou não só a sua participação mas a forma como se comportou em campanha onde, todas as intenções, motivações e acções eram dominadas pelas incertezas e sobressaltos da guerra que, se fizeram emergir a grandeza de alma, a nobreza de comportamentos e a força moral de uns também colocaram em evidência as misérias, referenciando os inseguros, diminuindo os fracos e traumatizando os inadaptados, servindo de prova evidente da mais completa ingenuidade e da total inexperiência que se tinha da vida.»

domingo, 1 de fevereiro de 2009

P088-Os mortos ao nosso lado...

O que sentimos quando os vimos cair ao nosso lado, abatidos a tiro ou despedaçados com rockets ou minas... O João de Melo sentiu assim em Angola, como diz no seu livro "Autópsia de Um Mar de Ruínas". Na Guiné não foi diferente. As ruínas até foram maiores... cada um de nós sabe. Em vez de Amaral eu posso falar em Carlos, em vez de Cláudio posso dizer António. Todos temos nomes. Todos sabemos da loucura que nos deu na altura da morte deles.

«…Sabem como são os mortos? Ei-los dormindo boquiabertos e com as pálpebras enormemente esticadas: alguns têm a morte no ventre, outros nos dedos muito grossos, e são como os palhaços adormecidos entre dois números de circo ou no intervalo que separa o riso da sua infinita desgraça interior. O cadáver do soldado Amaral observava o circo e devia pensar que o mundo se enchera já de tudo o que não servia para nada. Eu saltara por cima dele, e senti que a solidão da eternidade me dava uma dentada na cabeça do pénis. Ouvi perfeitamente o meu grito, o grito das minhas pernas enroladas no seu corpo, e detive-me apenas um instante a observar-lhe a testa com um tiro: alguém devia ter feito pontaria às sobrancelhas muito revoltas, pois uma miserável pena de pássaro fora decerto disparada, como a seta por um arco, e entrara fundo no espaço da sua cabeça. A estranha morte repetia-se assim: da parte da frente, quase não se dava por ela, uma mordidela distraída, o fracasso ligeiro de um corno de peixe-agulha e nada mais. Porém, do lado de trás, ao centro da nuca do soldado Amaral, uma cratera com ovos abrira tudo: esguichavam bolas de sangue, miolos vomitados, rolos de cabelo misturados com esquírolas e lascas de couro. E então eu soube que estava no mais horrível momento e que toda a memória da minha vida tinha entretanto desaparecido.
Quem era eu?, pensei. Nunca estivera em outro qualquer lugar do mundo. Apalpava o meu corpo com as mãos incrédulas, e ele já não existia; tinha-me esquecido de todas as suas formas ainda há pouco familiares, precisava de ir à procura dele, recuperá-lo depressa, regressar com ele ao mundo de que nos havíamos perdido. Encontrado o corpo, corri por dentro dele, obriguei-o a mover-se para diante, ao encontro dos outros mortos, e os meus músculos eram manivelas, roldanas, estranhas rodas-dentadas ligadas a pequenos rodízios com ferrugem.
Quem sou eu?, pensei de novo. Quem sou eu, para ter de olhar o peito aberto do soldado Cláudio, as suas pernas abertas e flectidas, o olhar de virgem violentada no meio do canavial? Não sou capaz, não vou ser nunca capaz de contar os ossos, o rasgão dos punhais que tinham mordido muito fundo os seus pulmões. Não vou ser capaz de olhar e ver o modo como o granada estremeceu e estoirou as aduelas inúteis das costelas, varreu por dentro as migalhas dos miúdos ossos sem nome e acabou por anichar-se-lhe no estômago. Morde bem a língua, meu menino; fecha bem as mãos e agarra as madeixas de capim; espreme toda a esperança da terra e aperta o saco do teu corpo, onde guardarás as estrelas, as dragonas, o monóculo, o pingalim dos generais da tua guerra…
»

domingo, 25 de janeiro de 2009

P084-Antes da guerra (9)... Fui professor no Colégio dos Órfãos - I






Cheguei ao Colégio dos Órfãos, no Porto, em 16 de Março de 1963. Comigo chegou também o cabo-verdiano Jaime do Rosário (o tal que, mais tarde, fez parte da banda Os Tubarões). Eu fui dar aulas de Português e Francês ao 1.º ano e ele aos miúdos da 4.ª classe.

Este colégio existe ainda (mas não já com os mesmos objectivos) no Largo Padre Baltazar Guedes, ao fundo da Rua de S. Victor e ao cimo da escarpa virada para o Douro, para a ponte de D. Maria e para a boca do túnel de onde saíam os comboios que vinham de Campanhã para essa ponte.

Vale a pena contar um pouco da sua história:
Foi, no Porto, a primeira Roda dos Expostos - casas onde eram acolhidas, no século XVII, as crianças órfãs ou abandonadas pelos pais. Substituindo essa Roda, o padre Baltazar Guedes, em 21 de Novembro de 1651, fundou o Colégio dos Meninos Órfãos, fora dos muros da cidade, no Campo do Olival (hoje Campo dos Mártires da Pátria). As disciplinas eram: latim, música, náutica, desenho e outras artes. No seu testamento deixou esta instituição ao senado da cidade do Porto. Estava lá, em 1762, a Aula de Náutica e, em 1779, a Aula de Desenho e Debuxo. Em 1803, o governo pretendeu construir nos terrenos do Colégio um grande edifício para a Academia Real de Marinha e Comércio da cidade do Porto, que se transformou, em 1837, na Academia Polytechnica do Porto (cujo edifício é hoje da Universidade do Porto, nos Leões). Para isso, chegou a um acordo com a Câmara: o Estado dava-lhe trinta contos e ela abandonava a propriedade do seu colégio. Assim foi. O Colégio passou primeiro para a Rua dos Mártires da Liberdade, n.º 237, indo depois para as instalações chamadas do Seminário Velho, ao Monte do Prado do Bispo, perto do Cemitério do Prado do Repouso, onde ainda se encontra, no Largo Padre Baltazar Guedes. Em 1906 foi-lhe aí construída uma igreja. Em 1951, a Câmara Municipal do Porto, que continua proprietária, entregou a sua direcção aos padres Salesianos.

Também aí escrevi um diário. Vai um primeiro dia:

27 de Março de 1963 - Já estou no Colégio dos Órfãos do Porto. Fui à igreja do colégio. Está cravejada de indivíduos petrificados. Aquilo são santos?... Tremendamente ridículos. Até há alguns em cuecas... E quanta beata a acender velas e velinhas logo de manhã! Como se levantam cedo essas ratas de sacristia!...
Fui ao enterro do padre Cassiano Guimarães na sua terra transmontana. A doença matou-o. É duro ver amarelo, frio, estendido num caixão alguém com quem convivemos. Como diz o Saint-Éxupéry piloto de guerra, custa sentir que nunca mais os poderemos ver nesta vida, que não os poderemos ver ao nosso lado, que nem sequer nos poderão aborrecer. Quanto não dava eu agora para que ele me pudesse aborrecer... “Para sentirmos a morte, precisamos de imaginar as horas em que teria tido necessidade de nós. Mas ele já não tem necessidade de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E, descobri-la, dói. Precisamos ver a vida com perspectiva. Mas não há perspectiva nem espaço, no dia em que o enterramos. O morto só amanhã morrerá, quando houver silêncio. Só então se nos mostrará na sua plenitude, para se arrancar, na sua plenitude, à nossa substância. Nessa altura, havemos de gritar que parte sem nós o podermos impedir.”
Tenho o “Diário” manuscrito do Cassiano. Deu-mo há já algum tempo, quando lhe dei o meu para ler. Tinha uma perspectiva de vida diferente da minha, já esperava a morte e agarrava-se a uma crença.

O José Cerca publicou este diário na internet.






sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

P083-Um matosinhense de gema

«…
- Nome?
- Tino.
- Tu regulas bem da cabeça, ou quê? Quero o nome do registo civil, percebes?
- Albertino Bexiga, mas todos me tratam por Tino.
- O raio dos diminutivos do Porto! Filiação?
- Sou filiado no Futebol Clube do Porto.
- Tu vens para aqui gozar com a tropa?! Olha que eu racho-te de meio a meio que ficas sem conserto! – berrou o sargento da secretaria do Centro de Instrução, com os olhos a saírem das órbitas. – Filiação é o nome do pai e da mãe! Vai cantando logo de seguida a idade e a naturalidade.
- Mãe, Maria Bexiga, pai… incógnito, binte e um anos, nascido em Matosinhos.
- Profissão?
- Embarcador e desembarcador de terra e mar.
- Se calhar és primo de algum almirante – começou o sargento em voz cinicamente pausada, para depois, no instante seguinte, berrar, levantando-se da cadeira: - Aos engraçadinhos aqui caem-lhes os dentes – e agarrando-o pelos colarinhos: - Tem juizinho, menino! Profissão?
- Estibador.
- Em caso de acidente, morte ou ferimento quem deve ser avisado?
- Ninguém.
Faltava apenas uma alínea e gritou:
- Nome de guerra, que nome escolhes?
- Tino.
O sargento olhou-o como se quisesse poupar à guerrilha o trabalho de o estender para sempre numa emboscada ou mina.

**
Era esse olhar que o Tino recordou enquanto abria caminho pelo vale cheio de gritos e rugidos que pareciam subir do fundo da terra.
- Lá estão esses cabrões a assoprar nos cornos do diabo! – exclamou para se animar e também para se esquecer. Dava azar crer que alguém o desejava morto, principalmente agora que esse facto não seria nada de extraordinário. Os “turras” não estavam ali para outra coisa. Para evitar que os inimigos cumprissem nele o seu dever, era preciso abrir os olhos e os ouvidos, esquecer a fome e a sede, os mortos não comem nem bebem. Queria apagar o olhar agoirento do sargento e, na dúvida, carregar o gatilho até despejar o carregador.
Avançava dobrado sobre a cintura, a G3 apontada para a frente, cada vez mais devagar, espreitando por entre as folhas, pisando o chão com cuidado para não fazer barulho.
…»

“Fotografia” de cá e de lá, podemos dizer que, com variantes, não será pouco comum da generalidade dos soldados que foram à guerra. Para nós, desta “Tabanca de Matosinhos”, tem o interesse de ser a de um matosinhense. Foi o Carlos Vale Ferraz (isto é, o Coronel Matos Gomes) que a fez no seu livro “Nó Cego”.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

P079-Fim-de-semana em beleza


Os quatro ex-alferes "sobreviventes" da CART1690 juntámo-nos este fim-de-semana.


Sexta-feira, 16 de Janeiro, foi uma jantarada no "Solar dos Presuntos" nas Portas de Santo Antão. Muito bem regados, aproveitámos para falar d' "As Duas Faces da Guerra". Pensámos a seguir ir ao "Comodoro", das nossas frequências nas vésperas da partida para a Guiné, com garinas caras, mas, o tempora, o mores, desgraça! já não há "Comodoro", há lá agora uma loja óptica, vendem óculos!! No fim de tudo fui dormir a casa do Domingos Maçarico, para os lados de Sintra.
Sábado, dia 17
- primeira etapa: belíssimo almoço em casa do Maçarico, preparado pela Ita, mulher dele, e pela Dona Fernanda (que é de Vila Nova de Gaia), também muio bem regado, e também falando da guerra;
- segunda etapa: continuação em convívio, deu para falar mais, de tudo;
- terceira etapa: já noite, achei por bem ir até ao Bairro Alto para relembrar o bar "Lua Nova", frequentado por nós também antes da partida, com garinas também, mas baratas. Fica na Rua da Cozinha Económica, n.º 8. Mas Também já não é o "Lua Nova". Perguntei ao balcão: isto não era o "New Moon" (foi assim que sempre lhe chamámos...)?... Espantou-se o homem. Quando eu lhe disse "Lua Nova", disse ah!... foi, mas agora chama-se "L'Trago" e é cubano... (está a fotografia em cima). Tá bem, venham mojitos, cubas libres... para matar a pena de mais um ponto de referência que desapareceu para as nossas saudades.
- quarta etapa: não me lembro a que horas, mas lá cheguei a casa da minha irmã no Príncipe Real, onde dormi.
Domingo, dia 18
Almocei com o meu filho e a minha nora, e mais a minha neta Sara. Depois vim de comboio até ao Porto.
Sem tanta agitação como a deste fim-de-semana, mas lembrei-me dos nossos convívios do "Milho Rei". Falei deles àqueles meus ex-camaradas de Geba. E do valor que dou aos encontros com eles, como dou aos das quartas-feiras.

P078-Antes da guerra (8)... Filosofei muito, tanto que fiz com que corressem comigo da Filosofia



Uma primeira chamada de atenção ao Álvaro Basto: como podes agora ver, a batina tinha carcela desde o cabeção até aos sapatos.

16 de Janeiro de 1963 - Ontem á noite falei com o Director. Manifestei-lhe as minhas dificuldades em continuar. Pareceu concordar comigo... Mas hoje houve conferência! Aquele homem é indigno de ser chamado tal. Vai buscar o argumento das conferências a casos particulares. Usou o meu caso como assunto. Eu é que fui burro?... Não, porque era necessário que eu dissesse o que disse... Foi preciso tomar uma decisão… Não quero aumentar o número dos anódinos.
18 de Janeiro de 1963 - Anda lá fora o Inverno. O sol despenha-se já no horizonte e, lá longe, do oriente, vem subindo um véu sombrio que envolve a terra, lento e manso. Está frio. E anda frio dentro de mim. Há folhas caídas e folhas mortas pelo chão da minha vida. Os ventos levaram tudo, as chuvas tudo arrastaram, deixando-me despido de realidades que foram sonhos. O tempo é eterno e eu passo o tempo a ver passar o tempo, a vê-lo arrastar-se atrás dos ponteiros do meu relógio. Com saudades, tantas saudades de alguém na minha vida! E querem que eu sorria. Mas, para quê sorrir se não amo?... E como há-de sorrir quem só espera pela noite? Como há-de sorrir quem aborrece o dia? O dia faz-me viver com os “outros”, e eu aborreço os “outros”. Não creio nos seus ideais. Acho até que nem têm ideais. É que, se os têm, são tão mesquinhos e egoístas que não brilham. Muitos andarão aqui levados pela corrente, e vão, vão sempre em frente... levados. O tempo passa e eles vão atrás do tempo, atados a ele, moles e sem alma. Amo a noite porque, à noite, deixo de ser eu e, quando durmo, deixo de pensar. Fico... De mim nada existe, o corpo não o sinto... Mas, antes de dormir, enquanto ainda existo, fico a pensar, e penso nos “outros” que de dia detestei. À noite, só à noite, quando, a meu lado estendidos, os sinto respirar, dormir, e eu, cansado, ainda vivo, sonho acordado... Ó mãe, mãe, que és a razão da minha existência, queria que estivesses aqui a meu lado, queria esconder a cabeça no teu peito e chorar. Queria desabafar, mas não confio em ninguém. Queria que estivesses aqui a meu lado, teria tanta coisa para te dizer...
20 de Janeiro de 1963 – A minha irmã e o meu irmão vieram visitar-me e já lhes disse que a coisa está feia.
21 de Janeiro de 1963 – O bibliotecário padre Amador apanhou-me a mim e ao Gonçalves na zona proibida da Biblioteca, o “Inferno”, como lhe chamam. Só queríamos ver uns livros do Sartre e do Camus… Sarrazinou-nos.
5 de Fevereiro de 1963 - O Gonçalves encontrou a figueira... foi-se embora.
9 de Fevereiro de 1963 - O Director disse-me que eu interrompia a Filosofia e ia para o Porto, dar aulas num colégio que lá têm de miúdos pobres e abandonados. É para pensar, disse-me ele. Já estou farto de pensar! Mas está bem, vou continuar a pensar. É bom mudar disto tudo, deixar esta gente que detesto na sua maioria.

E, como vêem pelos resultados que tive, fui razoável em Filosofia, não mau em Português, mas não tão bom noutras matérias. Aliás, muitas vezes me dirigi interiormente aos clássicos: ó Aristóteles, ó Tomás de Aquino, qual é a lógica desta merda toda?!... Não me responderam.