segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

P042-Um Natal... na mecha

Tem piada.
Conta Salgueiro Maia no seu livro "Capitão de Abril, Histórias da guerra do ultramar e do 25 de Abril":
O general Spínola, durante o período do Natal, visitava todas as posições ocupadas pelas Forças Armadas. Começava pelas sedes dos batalhões e ia até ao destacamento mais pequeno. Normalmente deslocava-se de heli, com um heli-canhão em apoio. Estava prevista nestas visitas a ida a Bula, o comandante do batalhão lá localizado ordenou que a companhia do capitão Gaspar informasse a sede do batalhão logo que os heli a sobrevoassem em direcção a Bula. Entretanto, toda a rede rádio de Bula e os sectores envolventes de Bissau, Mansoa e Bissum estão em escuta rádio.
Considerando a importância da missão, o capitão Gaspar achou conveniente ir pessoalmente para a rádio, e, assim, logo que ouviu o barulho dos heli a aproximarem-se chamou o comando do batalhão de Bula ao rádio e informou: "Informo Vexa [V.ª Ex.ª, Vossa Excelência] que Sexa [S. Ex.ª, Sua Excelência] passou na mecha. Terminado."
No dia a seguir foi recebida em todas as unidades no teatro de operações da Guiné a seguinte mensagem: "A Partir desta data expressamente proibido uso de abreviaturas Sexa e Vexa."

domingo, 14 de dezembro de 2008

P041-Mais outra frase - Não era só a expansão da civilização cristã...

Disse aquele que todos conheceram, in Os Nativos na Economia Africana, em 1954:
«Os pretos em África têm de ser dirigidos e enquadrados por europeus. [...] Os negros em África devem ser olhados como elementos produtores enquadrados ou a enquadrar numa economia dirigida por brancos».
Resumiu, magistralmente, os objectivos de 500 anos de colonização. Marcello José das Neves Alves Caetano, quando era ainda Presidente da Câmara Corporativa, naturalmente já dentro da perspectiva "correcta" do regime para as colónias e para a forma como encarar os seus povos.

P040-Nem só de sardinha assada vive o homem

Na passada quarta-feira, após o nosso almoço.... digamos..... diferente, como habitualmente, cada um seguiu à sua vidinha. E eu, o meu pai, o Jorge Felix, o Pimentel e o João Rocha decidimos ir a Braga, à fábrica das guitarras Artimusica, eu para fazer um pequeno arranjo na minha guitarra e o Jorge Felix para ir buscar um cavaquinho que tinha há tempos encomendado.
Fica-se sempre extasiado com a visão daqueles artesãos a tabalharem a madeira transformando as tábua e os barrote de madeira bruta em magníficas esculturas quase femininas que tangem magníficamente quando são bem tocadas por unhas de quem sabe.
O Pimentel ficou tão entusiasmado que tambem comprou um cavaquinho.
Vamos todos puxar por ele para no dia 19 o ouvirmos tambem no nosso concerto (ou será desconserto) de natal.
Aqui vão duas imagens, uma feita com o meu telemóvel e a outra feita com a câmara de especialista do Jorge Felix
Ah é verdade.... o Jorge registou também a imagem do assador das sardinhas que, cá fora, indiferente às itempéries... nem escutou os discurosos... (mauzinho...)
Até sempre

Alvaro Basto
As guitarras alinhadas meias prontas


A luz do Felix reflectida nos leques das guitarras


O intrépido assador das sardinhas

sábado, 13 de dezembro de 2008

P038-Frases célebres para pensar - ...Os inteligentes

Segundo Basil Davidson, in «A política da luta armada, Libertação nacional nas colónias africanas de Portugal", este homem da fotografia disse, numa contribuição para as "Noções de Estratégia do Curso de Altos Comandos", 1966/1967, que:
"A subversão é acima de tudo uma guerra de inteligência. É necessário possuir um elevado nível de inteligência. Nem toda a gente é capaz disso. Os pretos não possuem um nível de inteligência elevado. Pelo contrário, são o menos inteligente dos povos do mundo
Diz o Basil Davidson que ele "pelo menos teve oportunidade de se elucidar melhor a esse respeito". Eu também.

P037-Uma quarta-feira diferente

Fui deixando o tempo escorrer devagar para escrever sobre a nossa última “concentração” quarta-feirística na esperança de que me surgisse uma inspiração especial mas hoje é sábado e … nada!
Realmente a nossa ultima quarta-feira foi mo mínimo “diferente”.
Primeiro, porque não cessa de aumentar o número de camaradas que connosco querem partilhar aqueles breves momentos de alegria e confraternização, demonstrando desta forma que o “grupo” está activo e bem vivo . Houve mesmo necessidade de aumentar o nr. de mesas.
E finalmente, porque sendo a hospitalidade um dos ex-líbris das gentes do “nuorte..carago” ela não ficou muito bem demonstrada nas reacções que tivemos com dois camaradas que nos visitavam e connosco almoçavam, independentemente dos motivos mais ao menos compreensíveis e (porque não) desculpáveis que a isso levaram.
Ao Augusto Freitas e ao José Vieira, respectivamente Presidente e membro do Conselho Fiscal eleito da APVG (Assoc. Port. de Veteranos de Guerra) queria antes de tudo deixar aqui, tal como o fiz pessoalmente na altura, um formal pedido de desculpas por lhes cortarmos a palavra.
Não é habitual tratarmos os amigos assim.
É certo que não gostamos de discursos, especialmente quando eles são tão pessoalizados, feitos na primeira pessoa do singular, e à base de meia dúzia de frases gastas e retóricas ultrapassadas. Mas a nossa obrigação era mesmo, penso eu, “aguentar”….
Foi pena que não tivesse praticamente havido espaço para nos apresentarem condignamente a Associação que representavam, dando-nos a conhecer coisas tão importante como o peso da sua representatividade social ou o seu plano de acção, por exemplo.
Esquecendo agora o incidente... foi mais uma daquelas quartas-feiras memoráveis.
Ao Fernando Giesteira, ao Rodrigo Lopes ex-cdt, do Pel. de Nativos 61, ao Manuel Andrade e ao Manuel Rebelo ambos do Batalhão de Engenharia de Bissau e ao Antero Santos as nossas boas-vindas.
Apareçam sempre amigos!
Seguem-se as imagens da praxe e parte do discurso do José Vieira.
Até quarta….
Álvaro Basto











sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

P036-Antes da guerra (5) ...quando a cabeça já estava à tona d'água na minha "manhã submersa" - I

Lá saí de Mogofores e fui para Manique, do Estoril. Aí fiz, primeiro, o Noviciado (fiz voto de pobreza, castidade e obediência… obediência e pobreza tinha que ser, não havia remédio, mas quanto à castidade havia, o que estava à mão, é claro …), fazendo a seguir um ano e pouco de Filosofia (hão-de ver porquê). Foi quando comecei a pensar e a ver o que era aquilo.
Já o Virgílio Ferreira dissera no seu livro “Manhã Submersa” em 1954:
“(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos perfeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos”.
A partir de uma certa altura comecei a fazer um diário, um afastamento para dentro de mim próprio. Todos conhecem ex-seminaristas, certamente, mas talvez não imaginem como era as suas vidas, as amarguras e traumas sofridos. Vou dando alguns excertos, os mais significativos, e por etapas. Não quero fazer a história da minha vida, apenas fazer ver que espíritos e mentalidades, não preparados para isso, andaram envolvidos em “ver matar e morrer”, como disse o João de Melo. Poucos estariam, mas eles (conheço vários ex-seminaristas que estiveram na guerra) até tiveram uma preparação para o contrário.
6 de Março de 1961 - Chamaram-me singular. Porque é que eu sou “singular”?... Por eu não ser como os outros?...Às vezes vou para dentro de água quando os outros não estão lá; outras, enquanto eles lá estão não me apetece tomar banho e, portanto, não vou. Porque terei de ser como eles?!... Não posso ser eu próprio? Terei de ser, de agir como todo o rebanho?...
23 de Março de 1961 - Fartam-se de dizer que este ou aquele indivíduo são pessoas de virtude, almas boas. Mas eu não vejo onde está a virtude deles, dos que me cercam. Noto, sim, que não me compreendem, uma incompreensão flagrante, um alheamento dos problemas dos outros, um auto-aperfeiçoamento egoísta, presuntivos “olhar só para Deus” e “cuidar da salvação”. E isto contra todos os princípios que o seu pretenso Mestre lhes deixou. Será isso ser virtuoso?... Pode ser que sim...
18 de Abril de 1961 - O Bom Pastor... Hoje é dia do Bom Pastor. A mim custa-me a acreditar que ele cuida de mim em particular. Sinto-me lançado, posto a um canto. Do género “desenrasca-te”. Tudo me tem corrido mal.
19 de Abril de 1961 - Em tudo o que faço há-de haver sempre alguém para dar o seu veredicto e fazer a sua interpretação, sempre contra. Eu sei que tenho cometido faltas. Mas porque hão-de elas pesar sempre sobre as minhas acções e intenções presentes? Há indivíduos que estão sempre debruçados sobre o passado. Quando levantam a cabeça para encararem o presente os seus olhares míopes não conseguem vê-lo sem continuarem a ter as outras coisas impressas na retina. São as tais pessoas caridosas que ainda carregam mais na cruz de cada um. Hoje não andava cá nos meus dias “sim”. Pois ainda houve alguns senhores que me vieram chatear.
20 de Abril de 1961 - Eu gostava de ser alegre. Mas não, não pode ser. A alegria é o amor satisfeito. Eu sonhei com um ideal de amor, um tipo de amor que possuo em mim, mas que não encontrou satisfação em parte alguma... nem em Deus. É escusado: nunca a vontade encontrará o objecto dos seus desejos... nunca terei alegria. Nunca encontrarei o outro amor igual ao meu. É estranho que Deus esteja nas criaturas. Não o vejo lá. Serei, acaso, obrigado a procurar Deus em toda a parte?... Um Deus invisível, barbudo... Um Deus que me obriga a amá-lo... Assim como Ele é grande, é também grande a tarefa de procurá-lo somente a Ele em toda a parte. Deus é amor. Já me disseram tantas vezes!... Mas eu não compreendo. É tão penoso procurar a Deus.
O Esparteiro da fotografia também esteve na Guiné como alferes miliciano, creio que em Mansoa. E lá casou com uma libanesa...




quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

P033-Cada um pensa como pensa


Cada um pensa como pensa, e o que acha que está bem. E há circunstâncias em que temos de objectar e confrontar os outros com o nosso pensamento. A formas como o fazemos é que têm que variar de acordo com as circunstâncias. Além disso, temos que considerar que cada um tem a sua maneira própria de colocar as sua opiniões. E, sabemos, nem sempre encontramos a melhor forma para o “público” que nos ouve.
A nossa experiência e vida, a nossa juventude, para nós que estivemos na guerra, foi um marco (vou chatear-vos proximamente com mais um bocado da minha…ah!ah!ah!) de onde partimos para lá, infelizmente. Mas gostaríamos que não tivesse sido assim. Não nos admiremos que nos possamos agarrar a ela com saudade e ponto de referência.
O Freitas fez a intervenção normal do Presidente da APVG para mobilizar e incentivar a generalidade dos veteranos de guerra perante o poder político (fomos defender a Pátria, e têm que ter isso em conta, considerar-nos e tratar-nos como tal…, etc. Há que considerar que uns acham que sim, embora outros achem que não, que foram somente obrigados e que apenas tentaram safar-se – como é o meu caso). Embora este, poder político, intimamente se esteja cagando para estas considerações, ou por convicções políticas ou por mero desprezo, mas, como tal, tem de ouvir isto assim. Disse-me que tinha falado como ex-combatente, situação em que ali estava. Mas eu também lhe disse que devia ter dito que era o Presidente da APVG e, assim, talvez não tivesse havido as reacções que houve, todos teriam compreendido. Mas é verdade que ele, como nós, é um ex-combatente (Angola e Moçambique) e merece consideração e respeito.
E aqui o cerne da questão. Nós somos um grupo de convívio e de recordações, sem objectivos de agregação de qualquer género, a não ser estar juntos, não fazemos discursos com tais objectivos, apenas comemos, bebemos, falamos, “amizadamo-nos”, cumprimentamo-nos e abraçamo-nos. Somos amigos. Tudo na base do passado comum. Não me parece, por isso, que seja de reagir de forma ostensiva (e ofensiva) contra opiniões que não nos quadram. Eu tenho as minhas (e muitos de vós sabem quais são) e cada um terá as suas. Mas há apenas que dizer que sim ou que não, que estou de acordo ou que não estou. E pode-se dizer porquê, claro. Nas calmas.
Camarada Freitas, aparece na próxima quarta-feira e traz o vinho da tua quinta.