domingo, 25 de janeiro de 2009

P084-Antes da guerra (9)... Fui professor no Colégio dos Órfãos - I






Cheguei ao Colégio dos Órfãos, no Porto, em 16 de Março de 1963. Comigo chegou também o cabo-verdiano Jaime do Rosário (o tal que, mais tarde, fez parte da banda Os Tubarões). Eu fui dar aulas de Português e Francês ao 1.º ano e ele aos miúdos da 4.ª classe.

Este colégio existe ainda (mas não já com os mesmos objectivos) no Largo Padre Baltazar Guedes, ao fundo da Rua de S. Victor e ao cimo da escarpa virada para o Douro, para a ponte de D. Maria e para a boca do túnel de onde saíam os comboios que vinham de Campanhã para essa ponte.

Vale a pena contar um pouco da sua história:
Foi, no Porto, a primeira Roda dos Expostos - casas onde eram acolhidas, no século XVII, as crianças órfãs ou abandonadas pelos pais. Substituindo essa Roda, o padre Baltazar Guedes, em 21 de Novembro de 1651, fundou o Colégio dos Meninos Órfãos, fora dos muros da cidade, no Campo do Olival (hoje Campo dos Mártires da Pátria). As disciplinas eram: latim, música, náutica, desenho e outras artes. No seu testamento deixou esta instituição ao senado da cidade do Porto. Estava lá, em 1762, a Aula de Náutica e, em 1779, a Aula de Desenho e Debuxo. Em 1803, o governo pretendeu construir nos terrenos do Colégio um grande edifício para a Academia Real de Marinha e Comércio da cidade do Porto, que se transformou, em 1837, na Academia Polytechnica do Porto (cujo edifício é hoje da Universidade do Porto, nos Leões). Para isso, chegou a um acordo com a Câmara: o Estado dava-lhe trinta contos e ela abandonava a propriedade do seu colégio. Assim foi. O Colégio passou primeiro para a Rua dos Mártires da Liberdade, n.º 237, indo depois para as instalações chamadas do Seminário Velho, ao Monte do Prado do Bispo, perto do Cemitério do Prado do Repouso, onde ainda se encontra, no Largo Padre Baltazar Guedes. Em 1906 foi-lhe aí construída uma igreja. Em 1951, a Câmara Municipal do Porto, que continua proprietária, entregou a sua direcção aos padres Salesianos.

Também aí escrevi um diário. Vai um primeiro dia:

27 de Março de 1963 - Já estou no Colégio dos Órfãos do Porto. Fui à igreja do colégio. Está cravejada de indivíduos petrificados. Aquilo são santos?... Tremendamente ridículos. Até há alguns em cuecas... E quanta beata a acender velas e velinhas logo de manhã! Como se levantam cedo essas ratas de sacristia!...
Fui ao enterro do padre Cassiano Guimarães na sua terra transmontana. A doença matou-o. É duro ver amarelo, frio, estendido num caixão alguém com quem convivemos. Como diz o Saint-Éxupéry piloto de guerra, custa sentir que nunca mais os poderemos ver nesta vida, que não os poderemos ver ao nosso lado, que nem sequer nos poderão aborrecer. Quanto não dava eu agora para que ele me pudesse aborrecer... “Para sentirmos a morte, precisamos de imaginar as horas em que teria tido necessidade de nós. Mas ele já não tem necessidade de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E, descobri-la, dói. Precisamos ver a vida com perspectiva. Mas não há perspectiva nem espaço, no dia em que o enterramos. O morto só amanhã morrerá, quando houver silêncio. Só então se nos mostrará na sua plenitude, para se arrancar, na sua plenitude, à nossa substância. Nessa altura, havemos de gritar que parte sem nós o podermos impedir.”
Tenho o “Diário” manuscrito do Cassiano. Deu-mo há já algum tempo, quando lhe dei o meu para ler. Tinha uma perspectiva de vida diferente da minha, já esperava a morte e agarrava-se a uma crença.

O José Cerca publicou este diário na internet.






sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

P083-Um matosinhense de gema

«…
- Nome?
- Tino.
- Tu regulas bem da cabeça, ou quê? Quero o nome do registo civil, percebes?
- Albertino Bexiga, mas todos me tratam por Tino.
- O raio dos diminutivos do Porto! Filiação?
- Sou filiado no Futebol Clube do Porto.
- Tu vens para aqui gozar com a tropa?! Olha que eu racho-te de meio a meio que ficas sem conserto! – berrou o sargento da secretaria do Centro de Instrução, com os olhos a saírem das órbitas. – Filiação é o nome do pai e da mãe! Vai cantando logo de seguida a idade e a naturalidade.
- Mãe, Maria Bexiga, pai… incógnito, binte e um anos, nascido em Matosinhos.
- Profissão?
- Embarcador e desembarcador de terra e mar.
- Se calhar és primo de algum almirante – começou o sargento em voz cinicamente pausada, para depois, no instante seguinte, berrar, levantando-se da cadeira: - Aos engraçadinhos aqui caem-lhes os dentes – e agarrando-o pelos colarinhos: - Tem juizinho, menino! Profissão?
- Estibador.
- Em caso de acidente, morte ou ferimento quem deve ser avisado?
- Ninguém.
Faltava apenas uma alínea e gritou:
- Nome de guerra, que nome escolhes?
- Tino.
O sargento olhou-o como se quisesse poupar à guerrilha o trabalho de o estender para sempre numa emboscada ou mina.

**
Era esse olhar que o Tino recordou enquanto abria caminho pelo vale cheio de gritos e rugidos que pareciam subir do fundo da terra.
- Lá estão esses cabrões a assoprar nos cornos do diabo! – exclamou para se animar e também para se esquecer. Dava azar crer que alguém o desejava morto, principalmente agora que esse facto não seria nada de extraordinário. Os “turras” não estavam ali para outra coisa. Para evitar que os inimigos cumprissem nele o seu dever, era preciso abrir os olhos e os ouvidos, esquecer a fome e a sede, os mortos não comem nem bebem. Queria apagar o olhar agoirento do sargento e, na dúvida, carregar o gatilho até despejar o carregador.
Avançava dobrado sobre a cintura, a G3 apontada para a frente, cada vez mais devagar, espreitando por entre as folhas, pisando o chão com cuidado para não fazer barulho.
…»

“Fotografia” de cá e de lá, podemos dizer que, com variantes, não será pouco comum da generalidade dos soldados que foram à guerra. Para nós, desta “Tabanca de Matosinhos”, tem o interesse de ser a de um matosinhense. Foi o Carlos Vale Ferraz (isto é, o Coronel Matos Gomes) que a fez no seu livro “Nó Cego”.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

P079-Fim-de-semana em beleza


Os quatro ex-alferes "sobreviventes" da CART1690 juntámo-nos este fim-de-semana.


Sexta-feira, 16 de Janeiro, foi uma jantarada no "Solar dos Presuntos" nas Portas de Santo Antão. Muito bem regados, aproveitámos para falar d' "As Duas Faces da Guerra". Pensámos a seguir ir ao "Comodoro", das nossas frequências nas vésperas da partida para a Guiné, com garinas caras, mas, o tempora, o mores, desgraça! já não há "Comodoro", há lá agora uma loja óptica, vendem óculos!! No fim de tudo fui dormir a casa do Domingos Maçarico, para os lados de Sintra.
Sábado, dia 17
- primeira etapa: belíssimo almoço em casa do Maçarico, preparado pela Ita, mulher dele, e pela Dona Fernanda (que é de Vila Nova de Gaia), também muio bem regado, e também falando da guerra;
- segunda etapa: continuação em convívio, deu para falar mais, de tudo;
- terceira etapa: já noite, achei por bem ir até ao Bairro Alto para relembrar o bar "Lua Nova", frequentado por nós também antes da partida, com garinas também, mas baratas. Fica na Rua da Cozinha Económica, n.º 8. Mas Também já não é o "Lua Nova". Perguntei ao balcão: isto não era o "New Moon" (foi assim que sempre lhe chamámos...)?... Espantou-se o homem. Quando eu lhe disse "Lua Nova", disse ah!... foi, mas agora chama-se "L'Trago" e é cubano... (está a fotografia em cima). Tá bem, venham mojitos, cubas libres... para matar a pena de mais um ponto de referência que desapareceu para as nossas saudades.
- quarta etapa: não me lembro a que horas, mas lá cheguei a casa da minha irmã no Príncipe Real, onde dormi.
Domingo, dia 18
Almocei com o meu filho e a minha nora, e mais a minha neta Sara. Depois vim de comboio até ao Porto.
Sem tanta agitação como a deste fim-de-semana, mas lembrei-me dos nossos convívios do "Milho Rei". Falei deles àqueles meus ex-camaradas de Geba. E do valor que dou aos encontros com eles, como dou aos das quartas-feiras.

P078-Antes da guerra (8)... Filosofei muito, tanto que fiz com que corressem comigo da Filosofia



Uma primeira chamada de atenção ao Álvaro Basto: como podes agora ver, a batina tinha carcela desde o cabeção até aos sapatos.

16 de Janeiro de 1963 - Ontem á noite falei com o Director. Manifestei-lhe as minhas dificuldades em continuar. Pareceu concordar comigo... Mas hoje houve conferência! Aquele homem é indigno de ser chamado tal. Vai buscar o argumento das conferências a casos particulares. Usou o meu caso como assunto. Eu é que fui burro?... Não, porque era necessário que eu dissesse o que disse... Foi preciso tomar uma decisão… Não quero aumentar o número dos anódinos.
18 de Janeiro de 1963 - Anda lá fora o Inverno. O sol despenha-se já no horizonte e, lá longe, do oriente, vem subindo um véu sombrio que envolve a terra, lento e manso. Está frio. E anda frio dentro de mim. Há folhas caídas e folhas mortas pelo chão da minha vida. Os ventos levaram tudo, as chuvas tudo arrastaram, deixando-me despido de realidades que foram sonhos. O tempo é eterno e eu passo o tempo a ver passar o tempo, a vê-lo arrastar-se atrás dos ponteiros do meu relógio. Com saudades, tantas saudades de alguém na minha vida! E querem que eu sorria. Mas, para quê sorrir se não amo?... E como há-de sorrir quem só espera pela noite? Como há-de sorrir quem aborrece o dia? O dia faz-me viver com os “outros”, e eu aborreço os “outros”. Não creio nos seus ideais. Acho até que nem têm ideais. É que, se os têm, são tão mesquinhos e egoístas que não brilham. Muitos andarão aqui levados pela corrente, e vão, vão sempre em frente... levados. O tempo passa e eles vão atrás do tempo, atados a ele, moles e sem alma. Amo a noite porque, à noite, deixo de ser eu e, quando durmo, deixo de pensar. Fico... De mim nada existe, o corpo não o sinto... Mas, antes de dormir, enquanto ainda existo, fico a pensar, e penso nos “outros” que de dia detestei. À noite, só à noite, quando, a meu lado estendidos, os sinto respirar, dormir, e eu, cansado, ainda vivo, sonho acordado... Ó mãe, mãe, que és a razão da minha existência, queria que estivesses aqui a meu lado, queria esconder a cabeça no teu peito e chorar. Queria desabafar, mas não confio em ninguém. Queria que estivesses aqui a meu lado, teria tanta coisa para te dizer...
20 de Janeiro de 1963 – A minha irmã e o meu irmão vieram visitar-me e já lhes disse que a coisa está feia.
21 de Janeiro de 1963 – O bibliotecário padre Amador apanhou-me a mim e ao Gonçalves na zona proibida da Biblioteca, o “Inferno”, como lhe chamam. Só queríamos ver uns livros do Sartre e do Camus… Sarrazinou-nos.
5 de Fevereiro de 1963 - O Gonçalves encontrou a figueira... foi-se embora.
9 de Fevereiro de 1963 - O Director disse-me que eu interrompia a Filosofia e ia para o Porto, dar aulas num colégio que lá têm de miúdos pobres e abandonados. É para pensar, disse-me ele. Já estou farto de pensar! Mas está bem, vou continuar a pensar. É bom mudar disto tudo, deixar esta gente que detesto na sua maioria.

E, como vêem pelos resultados que tive, fui razoável em Filosofia, não mau em Português, mas não tão bom noutras matérias. Aliás, muitas vezes me dirigi interiormente aos clássicos: ó Aristóteles, ó Tomás de Aquino, qual é a lógica desta merda toda?!... Não me responderam.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

P076-Afinal a coisa vai....

Sobre o processo do Batista recebemos da Tabanca Grande a boa noticias que afinal.... parece que a coisa vai...
Ora leiam

Subject: Caso do Baptista

O processo do Baptista foi despachado pelo secretário de estado dos ex-combatentes em 13JAN09 com data de 16DEC08.
Agora vai ser enviado para a CGA para ser processado e começar a ser atribuído.
Vai ser também publicada no DR a sua condição de prisioneiro de guerra.
Como avançar a partir daqui não sei. Seria bom que lhe dessem um certo apoio jurídico.
Um Ab. do
António Costa

Como estarão recordados (vide post 066) eram 5 os passos que o seu processo teria de dar até chagar à C G Aposentações. ou seja para o Batista passar a receber aquilo a que tem direito.
O primeiro passo está dado, falta ainda ser enviado para o Min. das Finanças, ser despachado pelo respectivo Ministro, ser reenviado para o Min. da Defesa Nacional para publicação em Diário da Republica e finalmente ser remetido para processamento à C.G. Aposentações.
Tenhamos fé camaradas.
Uma palavra final de agradecimento para o Cor. António Costa que se tem mostrado inexcedível na resolução deste processo.
Bem haja
Álvaro Basto

P075-Mais uma animada quarta-feira

Para quê palavras? As fotos falam por si.
Éramos 19 e tivemos esta semana a agradável companhia do nosso querido amigo Albano.
video
Álvaro Basto

domingo, 11 de janeiro de 2009

P073-Antes da guerra (7)... fui filósofo.

25 de Maio de 1962 - A irmã do meu amigo veio hoje visitá-lo. Antes não o fizesse. Fiquei encantado com ela. Adeus, amor! Ficarás no mais fundo do coração. Se alguma vez alguém te vier buscar, Deus queira que não estejas morto... Dorme, mas não morras. De vez em quando, grita, suplica-me para eu te alimentar. Alimentar-te-ei custe o que custar, com o meu próprio sangue, com a minha vida. O que eu não quero é que morras. Quero eu morrer, tu viverás eternamente. Quando eu morrer serás realidade. Agora, és aquela estranha sensação que sinto no fim dum sonho lindo. Fazes-me lembrar o sonho mais belo que tive até agora.
2 de Junho de 1962 - A vida é uma comédia. Às vezes, pensamos ser os protagonistas. Só no fim é que descobrimos que fomos o estrião. Vou esforçar-me por matar em mim o sentimento. Tem-me estragado a vida. Cada vez me convenço mais que a insensibilidade é o estado da verdadeira felicidade. Só me sinto bem quando estou longe dos outros. Só... comigo...
10 de Dezembro de 1962 - O riso é uma máscara com traços de mentira. Mas é preciso continuar a representar. Na minha vida só contam experiências negativas, impotências, esterilidade, fracassos. É que tudo me aborrece. Vivemos no século da publicidade, dos anúncios luminosos. No terreno comercial, é um verdadeiro desfalque e desperdício o que se faz para manter o prestígio de uma marca. Quantas listas de benfeitores e de donativos! Como parece bem!...
22 de Dezembro de 1962 - O que é um santo?... Um santo é um fantasma que ficou petrificado – em posição quase sempre incómoda – num nicho, rodeado de velhotas de pele encarquilhada.
1 de Janeiro de 1963 - Como é terrível dar o passo que há-de decidir de todo o rumo da nossa vida! Pesam-se os dois lados, tacteiam-se os dois campos... e em ambos há espinhos que picam e pesos insuportáveis. E se o rumo que tomamos é errado?... Vou correr a aventura.
7 de Janeiro de 1963 - É lamentável a falta de lógica que se nota em tanta gente. Contradizem a sua conduta com expressões demasiado dogmáticas, sem, ao menos, possuírem aquele bom senso que as poderia fazer calar. São o exemplo mais expressivo e mais real do princípio da contradição.
8 de Janeiro de 1963Hei-de interessar-me pelo que os outros possam dizer da minha deserção?... Quem me poderá julgar? Quem terá a base necessária para me julgar com equilíbrio? A maioria pertence à categoria dos superficiais... os que imaginam e supõem... E, por conseguirem imaginar e supor, quantos juízos e considerações dogmáticas! Deles não devo temer nada. Interessa-me o que dirão os espíritos profundos, esses que sabem distinguir... e esses são os que eu estimo. Como o padre Abbá, que me disse outro dia, amigavelmente, que a vida não é só aqui, que lá fora também há vida. É o único que me compreende, ele e o meu amigo Gonçalves. Temos falado. E ele ouve-me calmamente. Os charlatães só podem iludir o “Zé Povinho”. Mas há tanto charlatão e tanto papalvo por aí... Há uma certa semelhança entre eles e o “ápeiron” de Anaximandro: dizem tudo mas não possuem nada. São superficiais, nunca baixaram à medula... Só os que eu estimo baixaram lá. Só a estes deixei penetrar no meu “eu”, porque é a minha essência, privada do fictício e do acessório... E depois da minha deserção com quem posso contar? Comigo mesmo. Não me refiro ao “eu” ostensivo, mas a um outro “eu” que encontrei dentro de mim num momento de extrema debilidade.... É lá – no meu “eu” espiritual – que não pode entrar nenhum estranho; é lá que se encontra – que eu encontro – um lugar seguro. Quando me vir perseguido hei-de refugiar-me lá, baterei a porta na cara dos perseguidores... Poderão bater, escoicinhar... a “mim” é que não poderão chegar.


E Virgílio Ferreira continua a ser, com a sua magistral escrita, uma grande referência para mim:
«(...) o peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.»

sábado, 10 de janeiro de 2009

P072-Do Pdjiguiti para o Cumeré

Foto Wikipédia, com a devida vénia

Como os tempos mudam.

Agora já não precisamos da velha GMC ou do Unimog para ir até ao Cumeré, ou Bula. A STCP tomou a iniciativa de colocar na Guiné autocarros bem modernos.

Os camaradas que em breve vão partir de novo, agora voluntariamente, para a Guiné, numa visita para rever velhos amigos e matar saudades, não precisam de se preocupar. O tempo de espera é que pode não ser convidativo.

Zé Teixeira

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

P071-A nossa 1ª quarta-feira do ano

Começou bem o ano a nossa tertúlia.
Estão a tornar-se um caso no mínimo paradigmático estes nossos encontros à quarta-feira.
E depois uns arrastam outros e o resultado está à vista.
Éramos 31 ao todo na passada quarta-feira no Milho Rei.
O "debrifing" após o almoço torna-se animadíssimo com frases do tipo, então onde estiveste diz lá?.... então lembras-te disto e daquilo... é um reviver extraordinariamente salutar e amistoso que ajudado pela barriga bem cheia (de comida e não só) torna aquele espaço nas traseiras do Milho Rei um local mítico de vivências passadas. É quase uma terapia colectiva.

Desta vez para além dos habituais apareceram pela primeira vez:

O Ruano de Carvalho que na foto abaixo ficou entre o Jorge Oliveira Dias (que viajou connosco até à Guiné em Fevereiro do ano pasado) e o António Carvalho o nosso autarca de Medas
O Dr. Giesteira levou o irmão António Giesteira e falou-se do seu projecto para uma nova clínica em Bissau.


O Francisco Barbeiro que pode ser visto aqui ao meio na foto abaixo e que foi tambem ele enfermeiro no Sul da Guiné


O Mesquita, amigo do Pimentel, aqui em baixo ao seu lado


O Télio Fernandes e o Fernando Costa, amigos do Ferreira Neto e que podem ser vistos na foto abaixo ao lado do Moita, que veio de propósito de Felgar para estar connosco.

As fotos são do Portojo e do Carmelita

Até quarta camaradas....

Álvaro Basto

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

P066-As desditas do Batista

Transcrevo aqui uma mensagem que recebi do Cor. António Pereira da Costa sobre o ponto de situação do "malfadado" processo do Batista.

Caros Amigos.
Volto a este caso.
E em 05JAN09 apurei que:
1-O processo está ainda para despacho no Sec. Estado;
2-Será enviado para o Min Finanças depois de despachado
3-É assinado pelo próprio Ministro das Finanças
4-Devolvido ao Min Def Nac para publicação em D
R
5-O Min Finanças envia o processo à CGAposentações
Um Ab. do
António Costa




Alguém tem sugestões para ajudar a "desncalhar" o processo do Gabinete do Sec. de Estado?
Afinal, era só tentar que o Batista usufruísse em vida daquilo a que ética, moral e legalm
ente tem direito....
Fica aqui o apelo

Alvaro Basto

P065-Quid pro quo ou a "quinta está desafinada"


Gostei desse termo tão usado afinal em retórica e eu só hoje vi como se escrevia… Se o vi porque escrevia é porque o li, e se o li foi porque estive com atenção a um esgrimir de palavras que evidentemente não serão as mais acertadas… O Marques Lopes admiro porque sabe muito bem moderar situações, é de uma humanidade incomparável e de uma calma de um bom "chefe" – não digo isto de bom chefe com qualquer sentimento de sarcasmo mas sim porque o sinto e já mais do que uma vez o vejo a moderar e bem e a dizer com calma – cuidado que isso pode ser complicado… TENS PACIÊNCIA QUE É O QUE MUITO FALTA AGORA.

Eu um dia na Tabanca Grande meti lá uma destas gaf's (não sei se é assim que se escreve), mas no entusiasmo da escrita a certa altura cometi a imprudência de dizer que haviam até indivíduos do QP que iam com vontades para o ultramar PARA TIRAR PROVENTOS… enfim… burrice atrás de burrice. De imediato o Pedro Lauret me chamou a atenção pela generalização e o Marques Lopes fez-me o mesmo… é por demais evidente que as minhas desculpas já estavam na manga e seguiram para o respectivo sítio… Nesse dia tinha-me fervido o sangue que sobrou de tanto" álcool que bebi então " que disse asneira… Tolo e empolgado disse "merda" muito rapidamente, falei de repente e mal pensado e saiu aquilo que efectivamente não era o que eu queria dizer. Melhor fora então estar calado, valeu-me efectivamente a reparação da desculpas que pedi e que se ajustavam ao caso… APRENDI, que quando falar não me posso focar num ou noutro caso mas na generalidade – aí todos iguais claro e na altura todos nos mesmos teatros de operações , a comerem a mesma coisa, usarem as mesmas balas e a "embrulharem" mais ou menos, etc… EU FUI TOLO NA ALTURA armado em escritor e crítico – aprendi a falar só quando fundamentado e nunca generalizar… mas… Ouçam:

Tinha – já não tenho porque morreu – um amigo que como eu tocava viola de fado no grupo de fados de Coimbra onde agora toco, aliás ele era um grande violista… Acontece que um dia estava num concerto público e… a certa altura, num intervalo de um fado – alguém chega-se à beira dele e diz: – a quinta está desafinada (quinta é a quinta corda da viola – um si). Meu amigo tentou afinar a quinta - tontintonton e pronto… lá continuou a tocar. Acabado aquele outro fado o mesmo indivíduo que tinha vindo ter com ele chegou-se novamente e disse: - a quinta está desafinada. Tin tintoton lá o meu amigo afinava e pronto já está afinada - outro fado e mais outro. Terminada outra música lá vinha o homenzinho e dizia: - amigo a quinta está desafinada. Bem o concerto fez-se e muito bem muitas palmas e o homenzinho já tinha sido afastado dali por estar a perturbar o concerto – afinal era doente da cabeça, maluco e só sabia dizer aquilo e pouco mais – a quinta está desafinada – UM TOLO como costumamos dizer em gíria e é mesmo… AFINAL A VIOLA ESTAVA AFINADA, o homem é que era infelizmente desafinado da cabeça…. qui-pro-quo , pois o meu amigo falecido já pensava que a viola estava mesmo empenada e não afinava… ESTA história verdadeira, nem sei se alegre ou triste mas foi assim e ainda hoje nos rimos de tal… Devemos ter cuidado com o que dizemos a não ser que sejamos como aquele homenzinho, e ter a certeza que a arma que empunhamos esteja limpa para que não aconteça alguém vir dizer que está suja…

Outra história esta militar foi passada em Vendas Nova… Num desfile passava a fanfarra e de fardas mais bonitas estava o Comendante etc etc … aquilo que tantas vezes assistimos… A fanfarra tocava e a caixas tocam assim trá, trá, trátrárá… pum (bombo), trá, trá, trátrárá… pum (bombo)….. Um bom homem 1º Sargento resolveu assim… Ao som do bombo dava um "peido" e ninguém ouvia… SEQUÊNCIA ENTÃO: trá, trá, trátrárá… pum (bombo) + "peido" ; trá, trá, trátrárá… pum (bombo) + peido. Bom a certa altura a fanfarra faz suspensão de bombo e ficou assim a sequência: trá, trá, trátrárá… pum (bombo) + peido, trá, trá, trátrárá… só "peido" - Fim. Muito sério o 1º diz: filhos da "puta" só agora é que haviam de parar…

Esta foi verdade também…

Aprendi aí também que – tenho que ter cuidado quando há uma suspensão – tenho que respeitar o ritmo da música… Etava eu na especialidade de atirador de Artilharia na EPA…

Um abraço, já que não pude ir hoje às sardinhas li tudo com mais atenção…

Um abraço, e quem tiver ouvidos que ouça, olhos que leia e quem não quiser - até à próxima sardinhada

QUERIA NO MOMENTO AGRADECER AO ÁLVARO QUE FEZ E PUBLICOU O VIDEO QUE GENTILMENTE MO OFERECEU, DO MEU GRUPO DE FADOS - SENDO QUE NESSE GRUPO ESTÁ TAMBÉM OUTRO COMBATENTE COMO NÓS E DA GUINÉ - O MANUEL MARTINS, IRMÃO DO ZÉ MARTINS QUE ESTÁ NA TABANCA GRANDE SEMPRE OPORTUNÍSSIMO NAS INTERVENÇÕES

David Guimarães

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

P064-Dores... ou preconceitos?

Caro Portojo
Fiz-te um "comentário" - Caro Portojo.Tens o mérito de escrever. Mas esta foi uma pedrada, só que penso que te enganaste, pois os charcos são noutros lados...Para melhor saber, gostava que me dissesses em que número do JN saíu esse comunicado da ANS. Abraço - mas não me respondeste. Hoje, o Álvaro Basto publicou uma nota da Lusa com ele. E eu li hoje também(07.01.09) esse comunicado no JN. O teu post referia-se a uma notícia do JN de 06.01.09. Estavas adiantado... Como é que a Lusa publica a 06.01.09 e tu dizes que o JN o tem nesse dia e eu só o li a 07.01.09?...
Falas no "poder infiltrado nas FA" e nos "tais infiltrados do governo"... mas não entendo quando dizes que "o partido manda dizer pela ANS...". Então, "o partido" não são os "infiltrados do governo"?... Não é o PS?!... Baralhaste-te, é claro. Querias-te referir àquele que sempre foi, desde o tempo da ditadura, "o partido", o PCP. E tu, anquilosado político, queres acusar a ANS de ser influenciada pelo PCP. Estás na linha do que era no tempo salazarista: quem está contra é comunista. Mas espanta-me que ainda assim seja.
Sabes muito bem que "420.480 escudos. Por cada homem das FA impostos já deduzidos" (és tu que dizes, não a ANS) não é verdade. É o que ganha um soldado, um cabo,um sargento, um alferes?... É malicioso. Estás a dividir uma galinha por não sei quantos e a dizer que cada um come galinha.
Indo às tuas mágoas da guerra, meu amigo, que também são minhas, devo dizer-te que nunca tive rennies para me afagar o estômago nem nunca comi lombo de porco assado na Guiné. Nem com gordura.
Finalmente ( por agora...), tens tantos sítios para onde amandar pedras... porque te lembras-te de amandar uma pedrada para as FA? Aliás, não entendo, porque aproveitas a Associação Nacional de Sargentos, quando ela apenas fez um comentário na base de dados estatísticos oficiais (não sou sargento, atenção!). Até conheces o seu Presidente, segundo me disseste. Haverá algum quid pro quo?

P063-Ainda o artigo da ANS


Para que todos possamos ajuizar mais correctamente sobre o que fala o Portojo no poste 062, aqui se reproduz o referido artigo da Associação Nacional de Sargentos.
Reafirmo o cuidado a ter na interpretação dos números que o artigo cita para não se cair em conclusões precipitadas.
Lembrem-se da história do frango para quatro pessoas, três das quais que não gostavam de frango. Em média cada um comeu 1/4 do frango !!!!


Lisboa, 06 Jan (Lusa) –
A Associação Nacional de Sargentos (ANS) divulgou hoje um documento onde demonstra que, de acordo com um anuário estatístico de 2006, os militares portugueses dos três ramos ganharam em média 2,88 euros por hora.

Segundo as contas feitas pela ANS, com 1.160.000.000 de euros gastos com 36.780.000 elementos em serviço efectivo durante 24 horas e 365 dias por ano, cada militar ganhou 2,88 euros por hora em 2006, de acordo com o anuário estatístico respectivo, "o mais recente disponível".


Multiplicando os 36.780.000 militares pelas 24 horas do dia e posteriormente pelos 365 dias do ano, o total são "322.192.800 horas de prontidão para servir", refere a associação.


Assumindo que a "média de descontos" para o IRS e Segurança Social é de 20 por cento - e retirando essa percentagem aos 1.160.000.000 euros gastos em pagamento de salários -, o resultado são 928.000.000 euros a dividir pelos três ramos, Exército, Força Aérea e Marinha Portuguesa.


Dividindo os mais de 900 milhões de euros pelas cerca de 320 milhões de horas de serviço, a ANS chegou aos 2,88 euros pagos a cada militar.


"Isto terá sido quanto o país investiu no pessoal que faz funcionar num dispositivo 24 horas por dia, todos os dias do ano, em quaisquer condições e que cobre uma gama de serviços públicos que vão desde o transporte de titulares de órgãos de soberania e organismos oficiais, à abertura de caminhos e construção de pontes, da segurança e navegabilidade nos espaços marítimo e aéreo até à salvaguarda da vida no mar, evacuação de doentes e sinistrados", exemplifica a associação militar em comunicado.


De acordo com o anuário estatístico de 2006 referido pela ANS, só a Marinha e a Força Aérea terão salvo quase quatro mil pessoas em missões de apoio ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) ou "em evacuação e resgate de embarcações na orla marítima".


"O conceito das Forças Armadas como um serviço público tem, ao longo dos anos, sido ocultado e mesmo combatido dentro e fora dos quartéis, de dentro, muitas vezes inspirados por conceitos induzidos pelo poder político, defendendo que os militares existem só para combater onde quer que haja guerra", critica a ANS.


Para os Sargentos, também os partidos políticos "que ao longo dos últimos 32 anos têm governado o país" têm contribuído para "esvaziar as Forças Armadas de capacidade" e para uma separação entre militares "e o povo a que pertencem, de onde emanam e que servem".


Alvaro Basto

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

P061-Convite à amiga Lu


Enviei este bouquet à nossa amiga "comentadora" Lu. É para que se junte à nossa tertúlia. Com direito a sardinhas, claro! Há já apoios nesse sentido.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

P060- O David Guimarães e o Fado de Coimbra

Como todos sabem o David Guimarães toca num grupo de Fados de Coimbra de grande valor, o Grupo do Choupal até à Lapa.
Eis aqui um pequeno enxerto de um espectáculo realizado no cinema Batalha há algum tempo.
Espero que gostem


sábado, 3 de janeiro de 2009

P058-O Nosso Almoço do Ano Velho

video

Melhor que palavras, as imagens contam bem a história do nosso ultimo almoço do ano 2008

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

P057-Um poema de Natal do Zé Manel para a Tertúlia


Na quarta passada o Zé Manel falou-me de uma pequena poesia que havia feito num dois Natais passados longe na Guiné. Desafiei-o a partilhar isso connosco e eis o que recebi dele por e-mail:

Os Natais até 72, eram momentos muito especiais, em casa de meus avós maternos, com os meus seis irmãos, todos mais novos que eu, os meus tios, muita,muita gente, pois até os empregados da casa jantavam connosco numa enorme mesa. Depois do jantar os mais novos ouviam deliciados as estórias da minha avó Glória, outros jogavam ás cartas matando o tempo enquanto se aguardava a chegada do Pai Natal que deixava as prendas na lareira da cozinha onde secava o fumeiro. Em 1972 tudo foi muito diferente. Uma enorme angustia que começou muito antes do dia 24 de Dezembro. Os dias iam passando devagar com uma vontade enorme de adormecer e só acordar no dia seguinte ao Natal.Mas fomos descobrindo aos poucos que nesse ano também tinha de haver Natal e tivemos de inventar uma família e ela nesse ano foi o Carvalho, o Nina , O Vieira, O Simões, o Farinha, O Polínia, O Vilas Boas, O Fernandes e também houve crianças. o Amadu, a Fati , o Seidi e muitos mais... Houve bacalhau num enorme jantar na escola de Mampatá e até batatas imaginem., o Martins Furriel Vagomestre arranjou esse milagre, e houve vinho, houve alegria e alguns choraram. eu dias antes tinha escrito algo assim:

O calor húmido nos envolve
abraça-nos a escuridão
e a noite se faz dia
co ribombar do trovão
cai água em catadupa
numa suave carícia
fecho os olhos...
que delícia!
até sinto um arrepio
sinto-me bem afinal
e penso que é Natal!..."

Zé Manel Lopes




P056-Antes da guerra (6) ...quando a cabeça já estava à tona d'água na minha "manhã submersa" - II

Depois destes dias de jingle bell, bom natal, feliz ano, tantas prendinhas para o menino, vê lá não bebas muito, não chateies ninguém porque é dia de festa, vou voltar ao que nunca esqueci, aos meus tempos de seminarista em Manique. Vai mais um copo.

Mas, primeiro, deixem-me lembrar novamente Virgílio Ferreira na sua "Manhã Submersa":
«(...) Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento «real», a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas «comovente»... Dói-me o que sofri e «recordo», não o que sofri e «evoco».

3 de Maio de 1961 - Depois de ouvir as façanhas dos soldados portugueses em Angola, ponho-me no lugar deles. Sonho com mil combates dos quais sou o herói... Tenho muitos sonhos desses. A maior parte das vezes saio vencedor, mas há vezes em que morro. No entanto, é sempre cercado de glória, sempre como um herói, sempre louvado e recordado pelos vivos. E eu, mesmo depois de morto, assisto à minha exaltação, ouço os comentários desvanecedores e o meu nome pronunciado por milhares de bocas, com uma série infinda de pontos de exclamação e admiração... Mas, quando acordo, acho melhor estar vivo.
15 de Maio de 1961 - O Gonçalves contou-me a história daquele seminarista que, desgostoso com a sua vida de clausura, despiu a sotaina, pendurou-a numa figueira e fugiu, saltando o muro do seminário. Também a mim me dá desejo de deixar esta grandessíssima porcaria. Se eu ao menos encontrasse uma figueira para pendurar todos os meus comlpexos, todas as minhas frustrações, todas estas cadeias que me rodeiam dia a dia e nas quais eu me vou deixando enlear... Falei com o Director Espiritual sobre os meus problemas sexuais. Mas que grande merda! Julga-me uma criança... “Estás a tornar-te um homem”. Há mais de três anos que me andam a dizer isto. Ainda não terei mudado nada?! E dão-me a ker livros que eu já devia ter lido há mais de três anos... Essa literatura para mim já não apresenta novidade nenhuma. Quando me dão a ler livros desses já eu há muito tenho ultrapassado o que neles vem escrito. E de que maneira! Além isso, como pode dar resultado uma direcção espiritual que sou obrigada a ter com um indivíduo que para isso é uma autêntica nulidade?
18 de Junho de 1961 - Hoje apetece-me saltar o muro... Mas, ai de mim se o salto! Serei tido como ladrão, hipócrita... Andei a enganar os superiores! Malandro! Roubei todos aqueles contos de réis que a congregação gastou com a minha educação. Serei verberado nas conferências, nas aulas. Coitado. Aquilo que tiver dito em particular será relatado da cátedra. Cátedra... que gozo. Como esse móvel por si tão nobre tem sido tão ultrajado! Serei verberado da tribuna do charlatão – isso sim – do charlatão que aproveita a falência do seu rival para valorizar a sua mercadoria. Como ficam fulos estes idólatras quando o seu deus cai do pedestal!... Se o ídolo ainda ficou incólume, tratam eles de o afeiar. Depois, pregam aos outros o Deus verdadeiro, irritados pelo seu erro... É um género de vingança, porque me deixaste ficar mal.
7 de Julho de 1961 - As insinuações serão uma táctica pedagógica?... Talvez façam parte da tão apregoado sistema preventivo, do qual têm tanta cagança...
16 de Julho de 1961 - Talvez eu tenha sido sincero demais. Quantos o terão sido como eu?... Eu e a minha estupidez, a minha infantil boa fé. Por ter falado das minhas masturbações sofro agora as consequências.
31 de Julho de 1961 - Submeto-me à vossa vontade, meu Deus, mas peço-vos permitais que eu desabafe a minha dor no pranto, na solidão. Mas acho que já tenho chorado demais para a minha idade e a solidão tem sido, nestes últimos dias, minha fiel companheira. Fiel, muito fiel. Por toda a parte. Mesmo quando estou com os outros. Não viestes vós trazer o amor ao mundo?... Mas não o vejo nem sinto. Quando julgo ver ao longe a sombra desse amos – aquele com que eu sonhei! – corro, mas – oh, desengano! – tanto mais dolorosa é a desilusão quanto mais desejado era o ilusor. Não era aquele o vosso amor? Aquele amor com que eu sonhei não é o que vós viestes trazer ao mundo? Se é, para que trouxestes, então, um amor que atormenta as aspirações humanas? Um amor que a maioria não atinge?... Um amor não para todos, mas só para os eleitos?...
6 de Agosto de 1961 - A maior dor de quem sofre é ser desconhecida a sua dor. Quando se sofre é sempre bom ter alguém que compartilhe da nossa dor.
15 de Agosto de 1961 - Começa a atacar-me a tristeza. Como são salgadas as lágrimas da dor!...Hoje rezei. Aguns rezam com uma esperança florida, o coração em festa. Outros haverá, certamente, como eu, que rezam orações de defuntos, nos lábios uma flor fanada...
16 de Agosto de 1961 - Muita alegria externa, muita dor no coração. Sabes, papel, o que é andar triste quando os outros estão alegres?... Sabes o que é não poder participar na alegria dos outros?... Estar triste pelo mesmo motivo por que os outros estão alegres?...
25 de Setembro de 1961 - Como são ridículos os juízos humanos! Que sabem aqueles senhores do Capítulo para poderem julgar? Quinze dias antes passeiam a consciência pelos corredores, por entre os cedros, espreitando com afã... Depois, em reunião, podem, com a consciência descansada, deixar escorregar pela caixa um miserável feijão preto. Um feijão preto que dará forças a um pobre para muitas noites e muitos dias?... E o Espírito Santo?! O Espírito Santo é Deus, e Deus só pode permitir o mal, nunca querê-lo – assim pregais!
25 de Outubro de 1961 - Vi no céu uma estrela cadente. Será a minha?... Não, porque no céu não brilha a minha estrela. Percorre outros caminhos, triste.
18 de Dezembro de 1961 - Falou-se muito sobre Goa. Os goeses Óscar e o Fremioth acham que foi natural, pois Goa é Índia. Se calhar têm razão.



O "terrorismo" em Angola e a "invasão" de Goa eram temas muito falados pelos padres, sempre dentro da linha governamental, claro.